A sessão 13

 


- Hoje é que sessão mesmo?

- Ainda é a treze -, respondeu papai com o cartão de marcação na mão.

Já faz uma semana que tenho procurado tempo, sem êxito, para escrever esse texto, sobre a sessão de número 13 que aconteceu semana passada. Até tiramos uma foto fazendo um L para postar, mas acabei sendo atropelado pela rotina e não o fiz. Acredito que é porque esse texto não deveria ser escrito na semana passada. De lá pra cá, tenho refletido sobre muitas coisas, maiormente sobre os medos que tenho criado ao longo da minha vida, os meus medos, desde aqueles mais pavorosos e àqueles mais bobos, avaliados assim diante dos olhos alheios.

Como bem já contei, papai está fazendo um tratamento com radioterapia e um pouquinho antes das eleições aconteceram alguns percalços que nos fizeram parar na sessão de numero 13. A máquina quebrou por duas vezes, ele viajou pra votar em Lula e retornamos à sequência hoje para entrar na sessão 14, ainda de um bocado que falta. Mas, não é disso que eu quero falar aqui... O texto que sairia na semana passada se perdeu na névoa do esquecimento, não era pra ser. Nesse texto, quero falar de outra coisa, de algumas memórias que me vem à mente e me fortalecem, que extirpam meus medos, duas em especial que me vieram a cabeça nas primeiras horas do dia sufocante que seria o hoje.

A primeira lembrança do dia foi do dia em que fui embora pra São Paulo. Ela constitui um dos maiores medos que tive na vida: não ser quem gostaria de ser e ficar preso na minha cidade. Ao me dar conta que minha Exú se tornara pequena demais para minhas aspirações, minhas vontades, eu decidi desbravar outros céus, me aventurar por atalhos na busca de respirar outros ares que não a poeira que minhas narinas estavam acostumadas. Com lágrimas nos olhos, no dia 15 de janeiro do ano 2000, na beira da pista eu ouvi papai me dizer:

- Não se avexe não meu menino, um dia você volta. Você será um doutor para não ter que trabalhar na roça como eu trabalhei a vida inteira e um dia poder cuidar de seu velho. Seus irmãos vão cuidar de você. Se não der certo você volta, pode voltar que eu cuido, como sempre cuidei.

Papai, talvez pressentia o medo se formando nos meus olhos e tomando meu corpo franzino. Foi a primeira vez que vi os olhos do meu pai se encherem de água, numa vermelhidão que me encorajou a entrar no ônibus da Gontijo para buscar o lugar que faria meu, que eu pudesse assinar, verdadeiramente, com meus atos. Ele estava certo, meus irmãos cuidaram muito bem de mim e a eles sou muito grato. Muito do que eu sou hoje, devo a cada um deles que ao seu modo, me transformaram na pessoa que eu queria ser. Essa lembrança veio rodear meu juízo hoje que o dia amanheceu denso. Essa memória me faz chorar até hoje e me lembra quem eu sou.

Seu Gabriel é um sertanejo de 77 anos, dentro de 78 como ele mesmo diz. Sertanejo criado na brutalidade que ecoa no vento de lá. Até sumir na estrada em busca do meu rumo, eu já percebia que o meu pai não conseguia dizer “eu te amo”. Pra ninguém. As palavras se formavam na sua boca, porém não produziam som algum. Evaporavam, ele as engolia com o cuspe seco, rasgando sua alma corpo adentro. Acho que ele nunca disse e nem ouviu isso do seu pai. Que era um sertanejo mais duro do que ele. Quando eu era pequeno eu tinha um medo descomunal de falar para meu pai que eu o amava. Nunca tinha visto os meus irmãos dizerem isso. E desde que fui embora desenvolvi uma necessidade compulsória de dizê-lo, sempre que tinha a oportunidade, como digo até hoje, quase todo dia. Lá no começo por telefone ainda, quando eu dizia: pai eu te amo, ouvia-se um silêncio ensurdecedor, eu sentia seus olhos encherem d’água há mais de dois mil quilômetros de distância, sua voz cortar, pra em seguida ser preenchido com palavras. Exatamente essas palavras:

- Pra você também, felicidades.

Eu ria do outro lado da linha. Eu sempre nutri um respeito, admiração e saudade do meu pai, cujo o destino quase o me assaltou na infância. Depois de muito tempo longe eu voltei pra casa e vi meu pai me esperando na porta de casa:

- Venha cá meu doutor, pra eu te dar um xero. Meu doutor de verdade.

Logo depois que defendi o doutorado eu voltei pra casa e fui recebido dessa forma. Essa é uma lembrança boa que tenho. E desde então não trocava uma visita a papai por nada. Na pandemia eu fui obrigado a ficar um bom tempo sem vê-lo, sem dar um xero, um abraço, sem poder ir em casa ver papai para dizer que o amava olhando para ele. Num desses dias de live, chorando sozinho acompanhado de vinho e Marilia Mendonça eu bêbado resolvi ligar pra minha mãe e pedi pra falar com ele...

- Pai eu te amo e estou morrendo de saudades...

- Pra você também...

- Nem venha com esse pra você também, eu quero que o senhor diga que me ama agora mesmo, vamos...

Silêncio.

 - Mas tu não já sabes disso?

-Sei, mas quero ouvir da boca do senhor.

- Tu tá é bêbado né seu pai d’égua?

- Tô, vamos não fuja não, diga logo.

- Eu te amo, tu não sabes que és a menina dos meus olhos? A minha estrela.

Depois disso o silêncio se formou do lado de cá. Se misturou as lágrimas que corriam dos meus olhos e sufocou a minha voz. Não saiu mais nada.

- Tá feliz agora?

- Tô

- Então Deus te abençoe.

De lá pra cá quando eu dou um xero nele, abraço e digo que amo ele responde: eu também te amo. Esse temo juntos de novo, aqui em casa, eu já homem e papai velho, tem me rendido a construção de muitas memórias que quero guardar com carinho para o futuro. Ele arrumou outras formas bem bonitas de dizer que me ama.

Esses dias eu estava no computador trabalhando no escritório e ele chegou perto, parou e ficou me olhando, como quem queria me dizer alguma coisa. Ou perguntar.

- Que foi veio lindo, posso ajudar em algo?

Ele continuou me olhando em silêncio. Mexeu com os dedos na ponta da mesa, desviou o olhar, voltou a me encarar e me disse:

- Quando tu era pequeno, antes de eu deixar tu ir embora para São Paulo, uma dia tu me disse que quando fosse grande ia comprar um carro pra andar comigo pra cima e pra baixo. Tu só não imaginava que ia ser assim nera? Com eu doente...

Os olhos do meu velho se encheram d’água. Eu emudeci. Papai tem me deixado sem palavras, por muitos momentos. Depois ele mesmo cortou o silêncio...

 - Vou me vestir pra gente não se atrasar pro exame de hoje. Vai ser de que horas mesmo? Hoje a quentura tá de lascar.

 E saiu, voltou pra sala. Eu me tranquei no banheiro e me pus a chorar. Voltei pra sala abracei Seu Gabriel e disse: eu amo tanto o senhor.

 - Eu também te amo.

 De vez em quando essas duas memórias retornam, para aparizaguar os medos bestas que eu tenho deixado me assombrar. Hoje eu acordei amedrontado, desencantado de tudo. Levantei pesaroso, com medo nem sei de que e encontrei meu pai e minha mãe na cozinha discutindo os resultados da eleição.

- É porque o povo tá com medo. Fica dizendo que Lula apoia um monte de coisa, que vai deixar as pessoas se casarem e aí ficam dizendo que vão acabar com a família.

- Mas que medo besta, que besteira, isso é porque Bolsonaro só gosta da família dele, só defende a família que ele acha certa. Lula não, ele quer defender é a família de todo mundo, família de tudo que é espécie e qualidade.

- Exato pai, ele vai defender a família dos pretos, das mulheres sozinhas, dos índios, dos gays...

- E isso não tem nada a ver, cada um se casa com quem quiser

- Sim, o senhor sabe que eu sou gay e que tenho um namorado, né?

Fez silêncio. Minha mãe estava na pia de costas lavando uma panela e parou. Papai, escorado na geladeira, olhou no fundo dos meus olhos... Encheu os olhos d’agua. Eu e minha mãe ficamos esperando a reação. Já há bastante tempo eu estava com isso entalado na garganta. Queria dizer ao meu velho algo que ele já sabia, mas não pela minha boca, e sempre recuava.

Me lembro quando falei para os meus irmãos e para minha mãe sobre isso e das coisas que ouvi. Ouvi muitos absurdos como se eu estivesse pedindo permissão para ser eu ou que quisesse a apreciação axiológica dos valores de alguns carregados de ignorância e preconceitos. Eu ouvi tudo, engoli cada palavra, guardei os áudios e os prints das conversas, nem sei pra que. Ouvi calado, engolindo o choro diante da tela do celular. Mas também ouvi coisas lindas de outros. Depois disso, alguns deles nunca mais me viram da mesma forma, nem a minha casa quiseram mais frequentar. Cada palavra lançada em minha direção dilacerava o que eu mesmo pensava ser, o que eu estava construindo.

Isso me fez nutrir um medo absurdo de falar pela minha boca da minha opção sexual ao meu pai. Já havia ensaiado várias vezes, mas as palavras não saiam. Em uma das tentativas quando ele me perguntou o que era que eu queria dizer, quase saiu da minha boca: pra você também, felicidades... Por muito tempo adiei, engoli as minhas próprias palavras com medo do que meu pai sertanejo dentro de 78 anos poderia dizer, poderia achar, poderia...

No meu juízo, sempre avaliava o tempo que levou pra ele dizer que me amava sem me desejar felicidades apenas. E se agora ao saber disso, e se ele não quisesse me amar? Só de pensar em fazer isso eu me tremia, tinha as entranhas tomadas por um frio que me paralisava. Eu homem de 36 anos independente de tudo não conseguia olhar nos olhos do meu pai e lhe dizer o que queria, até hoje de manhã, na manhã desse dia pesaroso para muitos de nós.

Não sei o que me deu. Simplesmente as palavras saíram assim, sem muito pensamento. Escorregaram do meu juízo fazendo, atravessando minha boca e fazendo morada no ar. E fiquei ali esperando a resposta. Ele me olhou de homem pra homem, de pai pra filho, de velho pra jovem. Esse olhar pareceu uma eternidade, ecoando nas brumas daquele silêncio, que foi cortado pela sua voz branda.

 - Eu já ouvi falar do assunto.

- E?

- Eu nunca perguntei porque isso não muda nada na minha vida. Quando a pessoa vem pro mundo, Deus já manda no sentido do que ela vai ser. E quando são os nossos, a gente tem que amar como Deus mandou, não é assim?

- É.

- E é por isso também que eu não voto em Bolsonaro...

- Porque ele quer ver gente como eu morta, apanhando na rua, levando um tiro no meio da testa.

- Exatamente, e tem cabimento eu votar num traste desse?

- Não tem, ainda mais que tem eu e Neuzão.

- Pois é.

Papai saiu pra sala e foi conversar com meu sogro, como se fossem amigos de infância. Minha mãe continuou em silêncio como se nada tivesse acontecido. E o dia se clareou lá fora e nas profundezas da minha cabeça, desenraizando o meu mais bobo pavoroso medo. O dia pesado de outrora não existia mais pra mim e apesar de tudo que aconteceu de ontem pra hoje, essa certamente é a memória que guardarei para o futuro quando um medo qualquer me acometer, já a elegi no seu nascedouro como uma das mais lindas, como um dos dias mais felizes da minha vida. Mas, que besteira, né? Não, não é besteira. O dia em que meu pai olhou nos olhos do filho gay dele, contrariando todas as minhas expectativas e deixou por meio da sua sabedoria eu saber que ele me ama, me ama de qualquer jeito, só me ama e que eu ainda sou a menina dos seus olhos, a sua estrelinha.

 Papai é o amor da minha vida. Eu já digo isso a ele desde muito tempo e já há um bocado ele me responde, sem apenas me desejar felicidade. Esse tempo com esse senhor tem me ensinado tanta coisa, tem mostrado muitas coisas que ainda preciso aprender. Enquanto eu o ajudo, da forma que posso, a se curar do câncer que o acomete, ele tem me ajudado a me curar de mim mesmo, a me curar dos meus medos mais terríveis. Hoje passamos para outra sessão da rádio e de nossas vidas. E continuaremos juntos acreditando no amor e levando o 13 para onde a gente acha que ele tem que estar.

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