SEXTOU COM S DE SALA DE ESPERA OU DE SAI PRA LÁ VEIO ENXERIDO

Hoje quando chegamos na sala de espera ela estava quase vazia, como praticamente tem sido todas as sextas. Papai entrou e eu fiquei respondendo as mensagens do zap recebidas ao longo do dia. Depois do tempo de costume, lá vinha seu Francisco arrastando as chinelas ecoando pelo corredor

 - É o meu que está vindo, né?

- É ele, mesmo...

- Tá vendo, conheço esse arrastar de chinela não é de hoje. Tava aqui dizendo pra ele que conheço quando o senhor estufa aí no corredor só pelo barulho do arrastado

- E é, é? Marminino

- É. S’imbora.

- S’imbora. Tchau rapaz, bom final de semana. Amanhã eu vou é pra praia.

- Eita que coisa boa, pois aproveite.

- Que praia? Vai já, só se for a praia do jegue.

Rimos os três. Saíram os dois. Fiquei eu. Minutos depois papai apareceu no corredor, vindo me entregar o cartão de controle, se apressando em ir ao banheiro. Entramos no carro e viemos da Boa Vista até Boa Viagem conversando sobre as coisas...

 - Eita que trânsito amuado, né?

- Hoje tá todo mundo indo pro Sextou...

- Pra onde?

- Pras festas...

- Ah sim... Ô coisa feia é um velho enxerido, né?

- Hein?

- Aquele velho do buchão, antes de mim. Estava lá me dizendo que amanhã ia passar o dia na praia. Mas, olha que arrumação.

- Seu Francisco?

- Uhum...

- E o que é que tem pai?

- O que diabo um velho doente vai vê na praia?

- E o senhor disse o que?

- Nada...

- E foi? Duvido. O senhor disse o que?

- Perguntei o que ele ia buscar na praia com aquela marca horrorosa, parecendo um boi zebu...

- Mas pai, não pode dizer essas coisas não. E que marca é essa?

- A marca, do tamanho da besta fera no pé do bucho. Nam, não gosto de gente enxerida. Um veio com uma lapa de bucho daquele na praia?

- (me segundando pra não cair na gargalhada) Mas, pai não pode sair falando essas coisas pra quem o senhor não conhece.

- E a gente não se conhece já não? Se encontra toda semana. Ele é muito é gaiatinho...

- Pois o senhor devia era ir pra praia também.

- Não senhor, não estou sendo fresco.

- Oxe e porquê?

- Eu não gosto de praia.

- Tem que aproveitar e dar uma passeada...

- Não senhor, que eu não vim pra passear, vim foi me tratar. Eu tô é doente, não é doido.

- E por isso não pode ir tomar um banhozinho de mar? A água salgada é boa pra tirar as energias negativas.

- Nammmm, se eu quiser me salgar eu boto um quilo de sal num balde com água e jogo na cabeça.

- Pois eu adoro.

- Pra quem gosta é bom... Eu mesmo não gosto, por isso não vou.

O carro parado no trânsito fui mandar uma mensagem pra um colega, papai achou que eu estava conversando com ele e antes de terminar o áudio meu disparou:

 - É Bolsonaro veio né? O bicho é nojento.

- É não pai, é um colega. Eu estava mandando um áudio.

- Ah, achei que tava falando desse traste.

 Acho que meu amigo do outro lado morreu de ir da análise as cegas de papai. Chegamos em casa, subimos as escadas às pressas. Eu sempre vou na frente pra luz ir acendendo sozinha pra papai enxergar os degraus...

 - Parece que essa luz só acende com o dono...

- Eita que hoje chegaram foi cedo. Corre, corre, corre... O pobe já chega se estourando pra no banheiro.

- (Saindo do banheiro) De sexta é mais rápido, hoje só tinha eu, o veio do buchão enxerido e aquele outro lá de Salgueiro. Só o trânsito que estava de lascar

- Vou esquentar uma sopinha pra tu comer...

- E de quando é essa sopa?

- Do ano passado, se esqueceu que eu fiz uma sopa no ano passado?

 Minha mãe ao dizer isso caiu na gargalhada. A risada dela é uma das coisas mais bonitas de se ouvir.

- Eita veia ignorante do cão. Pois, agora eu vou comer essa sopa só de ruim.

 Eu estava escutando o diálogo da cozinha e morrendo de rir sozinho. Papai se sentou, jantou a sopa do ano passado que tinha sido feito na terça passada e veio pra cozinha com o prato vazio. Eu estava temperando uma salada de alface, agrião, espinafre e rúcula...

 - E esse é o teu de comer?

- É, por que?

- Vôte

- O senhor devia era comer uma saladinha também pra ajudar na dieta

- Eu não sou um bode.

Deixou o prato na pia pra minha mãe lavar e saiu pra sala. Jantei e vim aqui pro quarto escrever esse texto pra não esquecer os detalhes. Tô aqui escutando eles conversando lá na sala:

 - Ele tirou foto de tu hoje?

- Por que?

- Tirou ou não tirou? Fulano está perguntando

- Tirou não...

- Pois se arrume aí que vou tirar

 Uns 2 minutos de silêncio e em seguida de uma gargalhada daquelas que adoro ouvir.

 - Eita veio feio da peste.

- Me de cá, deixa eu vê. Hum hum hum, feia é tu. Vai tire outra.

Mais uns segundos de silêncio e mais gargalhadas. Escutei papai rindo também. Estão lá os dois se estourando analisando as fotos enquanto escutam os sons da televisão. Os meus pais são umas figuras, parecem personagens de um texto de Ariano perdidos na loucura de Recife. Papai está doente, mas nem parece, porque o desaforo e a língua afiada continuam bem saudáveis (no sentido de uso ininterrupto). E que bom, porque ele tem me divertido bastante e me dado material vasto que tem tá me inspirando a começar a escrever os Conversas da Rádio.

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