Hoje eu chorei pelas ruas de Londres...
Eu
sou uma pessoa emocionada, quem me conhece sabe que eu choro com Lua de Cristal
da Xuxa. Se você não chora, pare e vá ouvir a música com a tenção e depois
volte. Ela é linda demais (sem julgamentos, por favor). Como eu dizia, eu sou
uma pessoa emocionada que chora com as coisas pequenas-grandes da vida e hoje
eu andei chorando pelas ruas de Londres.
Mas não foi um choro qualquer, foi um choro alegre. Me sentei na rua em Chinatown para comer um yakissoba e as lagrimas caíram. O casal ao lado me perguntou se eu estava bem e eu disse que sim, que era culpa da pimenta. Acho que eles não acreditaram porque estavam comendo a mesma coisa e não tinha pimenta.
Na
primeira colherada eu levantei a cabeça e vi aquele mundo de gente, aquele
mundo balões vermelhos pendurados, aquele mundo de cor, de sotaques, de gente.
Não me contive, dali pra frente foi assim o dia todo. Eu já estive outras duas
vezes em Londres, chorei também, mas dessa vez tem sido diferente. Essa daqui
tem gosto de vitória, de um sonho que se vive nele acontecendo...
É muito bom sonhar. Eu sou um sonhador. Desde menino carrego no meu juízo os sonhos mais impossíveis aos olhos da racionalidade e do destino que já no meu nascedouro insistia em não me reservar nada. Foram os sonhos que me fizeram vingar, primeiro os de minha mamãe, que sonhou por mim antes mesmo de eu poder. Depois os de papai que insistiu em enfiar na minha cabeça que eu, apesar de tudo, deveria ser um sonhador. Sim, foi ele, quando me disse pela primeira vez que eu era inteligente e que iria ser um doutor para poder cuidar dele. Eu acreditei e desde então eu sonho.
Quando fui embora pra São Paulo levei a coragem e um moi de sonhos que eu tinha (e tenho). Fiz uma lista dos 10 maiores. Me esqueci dela. Depois de anos, com alguns já realizados, ao organizar minhas coisas para voltar para o Nordeste eu achei essa lista no meio de uma caixa que guardava com várias memórias. Chorei. Guardei a lista de novo, num lugar escondido que eu mesmo esqueci. Anos mais tarde a encontrei novamente fazendo uma limpeza no apartamento, naquele que havia comprado pertinho do mar. Chorei mais um monte e risquei esse sonho da lista e então ali só faltavam dois. Aqueles dois que pareciam mais impossíveis para mim quando menino ainda não estavam riscados da lista: morar na França e aprender inglês. Minha vida foi tomando um caminho de privilégios, até então desconhecidos, que me permitiam realizar alguns dos meus sonhos com mais facilidade, mas esses dois nunca dava certo e por outros bons motivos.
Em 2020 o horizonte se abria para a realização desses últimos: enfim eu iria fazer meu pós doutorado na França e poderia aproveitar (e ter tempo) pra estudar inglês em Londres. Chegou a pandemia da covid-19 devastando vidas e sonhos e mais uma vez eles foram adiados. Nesse tempo meus sonhos foram enclausurados comigo
dentro de casa, mas sempre ali como faíscas.
Em 2022 eu estive em Salvador a trabalho.
Andando pelas ruas do Pelourinho fui surpreendido por um grito que me assustou.
Uma moça trans moradora de rua me encontrou, depois que virei ela me chamou de
uma maneira educada, ao ver que eu havia me assustado.
-Ei moço, que lindo seu cabelo. Posso botar essa fitinha do Senhor do Bonfim no seu braço?
- Moça eu tô um pouco atrasado. Obrigad...
- Não vai demorar. Que cor você quer? Vermelha e
amarela combina com você.
Como ela sabia que vermelho é a minha cor preferida? Enquanto eu pensava nisso ela com todo cuidado do mundo pegou meu pulso e a colocou, sorrindo.
- Moça agora eu não tenho nada aqui para te dar.
Estou só com o cartão.
- Não tem problema. Uma outra hora você passa
aqui e me dá alguma coisa. Só de me dar atenção e falar comigo eu já ganhei o
meu dia. Sabe, muitas pessoas aqui não param pra falar comigo, por causa de...
- Não ligue pra esses idiotas. Tu és uma lindeza.
Encabulada com o elogio ela parecia não saber o que fazer. Continuou amarrando a fita no meu braço, deu um sorriso um tanto triste e disse:
- Pense aí no seu desejo. Naquele sonho que você
mais quer. Pense nele e ele vai se realizar.
Eu parei e lembrei da minha lista com os últimos dois. Mentalizei com todo o meu querer.
- Pensou?
- Pensei.
- Quem é Helena?
- É minha mãe.
- Que nome bonito.
- E o teu?
- É Joã... Gisele.
- Lindo também
- Obrigado. Eu vou botar a fitinha mais pra cima pra não cobrir o nome de dona Helena, senão ela vai ficar brava. Tá muito apertada?
- Não, tá boa.
- Pois pronto agora é só esperar. Eu posso te dar um abraço?
- Claro. Venha cá.
Aquele abraço de Gisele era muito acolhedor no meio do sol escaldante da Bahia. Eu a abracei e sai às pressas. Fiquei com aquilo na cabeça. No caminho para o meu compromisso achei um caixa eletrônico, parei saquei 20 reais e voltei lá.
- Moço, mas eu não tenho troco.
Ela encheu os olhos d'água e me abraçou de novo. Em seguida pediu desculpas.
- Eu estava desesperada e não sabia como ia comer hoje.
Quando foi pegar o dinheiro da minha mão eu dei fé de uma fitinha do Senhor do Bonfim amarrada no seu pulso e perguntei:
- E o teu Gisele?
- Hã?
- O teu sonho, teu desejo, qual é?
- Que sonho?
Apontei para a fitinha. Ela ficou em silêncio.
- E gente como eu lá pode sonhar seu moço?
Essa fala dela apunhalou meu juízo. As palavras entraram goela abaixo queimando minhas entranhas, desordenadas como as pedras das ruas que sofriam com a quentura daquela cidade.
- Oxente, e como não? E essa fitinha aí? Tu desperdiçastes tua ficha com o Senhor do Bonfim?
Ela acariciou a fitinha rosa, já carcomida pelo tempo, quase quebrando e ficou pensativa. Depois de uns segundos que mais pareceram uma eternidade ela respondeu me olhando nos olhos.
- Eu não vou contar não, porque eu tenho vergonha – e botou a mão na boca como se quisesse sorrir, ou chorar. Nunca vou saber.
- Vergonha de que?
- Não. Eu não vou contar senão não vai se realizar. Diz o povo que a gente não pode contar os sonhos da gente pra ninguém. Não pode contar até a fitinha torar. A minha ainda não torou...
Ela tinha um sonho e ele ecoava do seu coração pelo brilho dos seus olhos negros e pelo seu sorriso verdadeiro. Dessa vez fui eu que enchi os olhos d’água. Fiquei sem graça com a minha invasão provisória na privacidade da moça. Afinal de contas ela não quis em nenhum momento saber qual era o meu sonho, o meu desejo. Porque então deveria me contar o seu?
- Bem vou indo, espero que tu tenhas um ótimo dia. Olhe se o meu desejo não se realizar eu volto aqui para pegar meu dinheiro de volta viu. Tomara que o teu se realize também.
Ela sorrindo, já comigo me afastando, gritou: - Ah vai se realizar sim moço nem que seja no último dia.
Até
hoje eu não sei se ao dizer isso ela se referia ao meu sonho, recém pedido ao santo, ou ao dela, o sonho secreto de Gisele. Eu fui embora e me
esqueci daquela moça. A rotina comeu essa minha lembrança tão bonita até ontem.
Passou o tempo e eu vi meu desejo se realizar, fui pra Paris fiz meu pós
doutorado e estou morando em Londres para aprender inglês. Na verdade eu tinha esquecido que aquela fitinha no meu braço representava esses sonhos... Simplesmente esqueci.
Às vezes a gente esquece dos nossos desejos, dos nossos sonhos. Sobretudo, quando eles parecem virar uma rotina e começam a desordenar nossa sensibilidade. Mesmo vivendo o sonho mais sonhado tem dias que estamos propícios a reclamar. Ontem dia 15 de março fez um ano que eu estou vivendo esse meu sonho, vendo-o se cumprir como uma profecia. Ontem também eu havia me esquecido que era um sonho e passei o dia reclamando das pequenas coisas da vida que nos tiram do eixo, dos obstáculos que mesmo os sonhos nos impõem, das incertezas da gente diante do mundo. Ontem mesmo sabendo que estou vivendo a plenitude do meu sonho eu me esqueci disso e passei o dia emburrado, impaciente. Ao voltar para casa no final da noite, nos derradeiros minutos para fechar esse último dia do meu ano, a pulseira de Gisele no meu braço torou.
Não sei como explicar. Imediatamente eu voltei a me lembrar porque ela estava ali, tão discreta nesses anos todos. Me lembrei de Gisele, do seu sorriso. Lembrei da nossa conversa de 5 minutos que se perdeu nas brumas do meu esquecimento. Eu parei, olhei para meu pulso com a fitinha esfarrapada e ouvi a voz de Gisele ecoando na minha cabeça:
- Nem que seja no último dia.
Eu sou uma pessoa emocionada, o que eu fiz? Exatamente eu comecei a chorar no meio da rua. Voltei para o hostel e fui ao banheiro lavar o rosto, quando eu estava saindo dei de cara com um rapaz com uma camiseta branca com a foto de Luiz Gonzaga estampada na frente. Eu parei e perguntei com meu inglês titubeante:
- Hi, where are you from?
- Eu sou do Brasil, da Bahia, de Salvador (ele respondeu em português).
- Que maravilha, eu sou de Exu, da cidade de Luiz Gonzaga (apontando para a camiseta)
- Eita! E tu lá das brenhas de Exu veio bater em Londres?
- Pois foi...
- Que coisa boa...
- Eu vou tomar banho. Tchau. Boa noite.
- Tchau. Boa noite.
Eu fiquei ali no corredor parado com essa frase ecoando na minha cabeça: - Tu lá das brenhas de Exu veio bater em Londres? Esse moço de Salvador não tinha ideia da força dessa frase que saiu da boca dele. Ali, passou um filme na minha cabeça. E eu chorei, de novo. Um choro de desabafo, de alegria, de agradecimento...
Para muitos esses dois sonhos que citei aqui podem parecer besteiras. Isso lá é sonho que se sonhe? Tem gente que acha isso, eu sei. Em Paris, por exemplo, eu cruzei com muita gente morando por lá realizando apenas um protocolo de pesquisa, sem a capacidade de se encantar com tudo aquilo. Gente que reclamava, reclamava e reclamava... Cada vez que isso acontecia eu implorava para o menino escrevedor de lista de sonhos não me deixar virar uma pessoa dessas. Aqui em Londres eu também tenho encontrado várias pessoas que a passagem pela cidade é só mais uma pequena experiência.
O primeiro sonho da minha lista de menino era ir embora de Exu para poder ser o que eu queria e não podia, para poder ser um artista. O último dela era vir pra Londres estudar inglês. Esses eram o meu primeiro e o último sonhos daquela lista de sertanejo. Mesmo que aos olhos de outrem pareçam pequenices, eles eram os mais gigantes sonhos que eu podia sonhar à época. Hoje são meus sonhos realizados.
Ao acordar nessa manhã eu lembrei de novo de Gisele e sorri. Me arrumei e sai para olhar o mundo. Fui bater em Chinatown para almoçar. Desci até a Picadilly Circus, segui até o Tâmisa apertando a fitinha de Gisele na mão. Chorando... Claro. As lágrimas não paravam. Qualquer coisa diante de mim me fazia lembrar dela. Andei meia hora com a fitinha na mão como se fosse um tesouro.
Somente agora escrevendo esse texto é que entendi as minhas lágrimas de hoje. É que Gisele e eu não somos diferentes, e esse choro de gente emocionada veio para me lembrar que eu preciso continuar sonhando, continuar lutando por um mundo onde pessoas como Gisele e eu possam sonhar, possam desejar ser o que quiserem ser e consigam, e realizem. Que cada fitinha torada na vida de pessoas como nós possa ser a consumação dos desejos provindos das graças do Senhor do Bonfim.
Hoje eu sou grato ao menino sonhador que fui, ao garotinho que escreveu aquela lista para mim. Sou grato a Gisele e espero que onde ELA estiver nesse mundo, possa estar feliz como eu estou. Sou grato também ao moço da Bahia com a camisa com a foto de Luiz Gonzaga por me lembrar em uma frase a minha vida todinha. Eu sou grato as forças e energias que contrariaram todas as expectativas que o destino quis estampar na minha cara logo que nasci, e me transformaram nesse homem sonhador que sou.
Eu sou um sonhador emocionado e hoje eu começo uma nova lista de sonhos. E você, como anda a sua lista? Eu daqui de longe desejo que sua fitinha se tore também...



Li pensando, que bom que existi gente emocionada e escreve sobre seus sonhos porque nos inspira e nos dar coragem para escrever os nossos!
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