A BENÇÃO PAI
Sabadou e o sol resolveu botar a cara no sol(?) hoje em Recife. Sábado de sol é que nem a música dos Mamonas, é dia de ir tomar caldinho de feijão debaixo do sol escaldante, no meu caso sem a maconha. Sim, caldinho de feijão com torresmo e ovo de codorna quente debaixo do sol escaldante. E já digo logo: é bom demais. Sábado de sol é dia de bater o prestobarba na parede e tirar os três fiapos horrorosos que a gente cultiva no peito e ir ciscar na areia poluída de Boa Viagem.
Eu sou do sol, me sinto Hélio cada dia que isso acontece. Nada melhor pra me animar do que ver da janela o sol tinindo no azul do mar. Nada melhor do que se olhar no espelho logo cedo depilado, com barba feita e cabelo cortado, se achando.
Saí do quarto nessa vibe e me deparei com essa cena aí da foto. Minha mãe nesse sábado de sol, logo cedo, tirando os pelos da orelha do meu pai. Eles são um casal muito bonitinho, porque minha mãe tem muita paciência com meu pai, é muita mesmo.
- Eita, tá se depilando pra ir pra praia, é?
- Venha pra cá...
- A benção pai...
- Deus te abençoe
- A benção mãe
- Deus te dê saúde
O meu pai é um sujeito muito observador, mas só observa o que quer. Tem um olho bem seletivo, e isso nada tem a ver com o glaucoma que o acomete. Tem coisa que ele se faz de besta, e tá tudo bem. Ontem antes de levá-lo na radio eu cortei o cabelo e fiz a barba. Tem gente que diz que eu tenho fetiche em cortar o cabelo e fazer a barba, mas a verdade é que se não fizer isso toda semana minhas madeixas ficam parecendo um ninho de passarinho esbagaçado, o rabo de um jumento depois de uma corrida dentro de uma roça de carrapichos, o pelo de um chow chow depois de se molhar e se espojar no chão de terra. Porém, ele cortado, tosado, fica no grau. Tinindo. Pois bem, ontem foi dia de barba e cabelo, e apesar da careca que já começa a aparecer, saí da barbearia com aquele pensamento bom: um homem de cabelo cortado e barba feita, não quer guerra com ninguém. Típico de legenda do Instagram, só não deu tempo de postar foto.
O negócio é que papai não reparou nisso ontem, mesmo depois de nosso longo percurso no trânsito. Mas hoje de manhã, logo que pedi a benção ele ficou olhando fixamente pra mim.
- Ei, é tu que corta teu cabelo?
Pronto, eu já esperava o que viria pela frente. Ele sabe que eu não tenho esse talento, no entanto, quando quer dizer alguma coisa começa com esse arrodeio.
- Não pai, eu cortei ontem, antes de levar o senhor na radio. Nem percebeu?
- E foi? Eu nem reparei.
Vim pro quarto pensativo e me olhei de novo no espelho. Misericórdia. Cadê o sujeito que tinha se visto há menos de 10 minutos? Hélio deus do Sol? Cadê? Só via agora a rabo do jumento cheio de nó de carrapicho. Voltei pra sala.
- Pai, por que o senhor quer saber se eu que corto meu cabelo?
- Por nada...
- Ficou bonito?
Ele deu uma risadinha. Minha mãe parou de tirar os pelos e eu fiquei esperando a resposta. Ela também com a cara de quem: tu perguntou mesmo?
- Hein, ficou bom?
- Nammm
Quando ele começa com esse nammm dele, pode esperar, vem valoração ideológica dos padrões estéticos da mais alta qualidade sertaneja. E aqui qualidade tem a ver com os gostos do velho Pajeú, isto é, o que ele acha bonito de ver lá em Exu.
- Nammmm o que?
- Isso lá é corte de gente?
- Como assim?
- Uma rudela na cabeça. Tá parecendo uma arupemba descangotada.
- Não tá bonito não, pai?
- Tá não. Tá é feio demais.
- Eu vou levar o senhor pra cortar o cabelo lá também
- Deus me livre
- Pra fazer um risquinho desse todo estyle do lado, olha
- Eu não tô doido não rapaz
- Oxe, vai ficar bonito, um velho todo moderno
- Eu vou ficar é parecendo um paiaço
- E eu tô parecendo um paiaço?
Ele riu. A risadinha irônica de papai é a maior afirmação em linha reta que alguém pode ganhar. É o signo rematador da conversa. Dali pra frente é melhor se retirar do diálogo. É a confirmação que ele está certíssimo e ponto final.
Voltei pro quarto, me olhei no espelho novamente e a única enunciação que minha o meu juízo produziu foi: um homem com a barba feita e o cabelo de rudela, é um derrotado e não quer guerra com seu pai. Mesmo assim, vesti a sunga e fui botar minha arupemba pra quarar no sol. Ainda bem que papai não viu a minha sunga, porque se não...

Kkkk. Muito bom. Acho lindo essa interação sua com seu pai... Ah e com o Sol kkkk
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